Realizar sonhos com a dança

Bailarina e pedagoga Keyla Ferrari realiza sonhos e transforma pessoas com deficiência e suas mães em bailarinos Quem tem a oportunidade de ver a jovem Lívia Andrade, 26 anos, no palco, pode comprovar que para a dança não existem limites. Portadora de gangliosidose, uma doença genética rara causada pela falta… [+]

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Bailarina e pedagoga Keyla Ferrari realiza sonhos e transforma pessoas com deficiência e suas mães em bailarinos
Quem tem a oportunidade de ver a jovem Lívia Andrade, 26 anos, no palco, pode comprovar que para a dança não existem limites. Portadora de gangliosidose, uma doença genética rara causada pela falta de uma enzima fundamental para o funcionamento dos neurônios, Lívia e sua família encontraram na dança uma forma de reinventar a vida, seus personagens, histórias e lições. O tempo de Lívia é outro. Sentada na cadeira de rodas, sem poder andar ou falar, a jovem que sempre amou os palcos e sonhava em fazer teatro quando criança conseguiu, por meio da dança, uma forma de traduzir suas emoções, sensações e inquietações.

É contagiante ver a alegria de Lívia quando ela está no palco. Ela não precisa saltar ou fazer malabarismo com o seu corpo para estar dançando. Basta olhar o brilho nos seus olhos e o sorriso que estampa o seu rosto”, confessa sua mãe, Raquel Firmino Andrade, de 45 anos, que além de Lívia, possui um outro filho, Eric Andrade, 22 anos, portador da mesma doença da irmã, e a caçula Bárbara, de 18 anos. Juntos, eles se entregam a dança e sobem ao palco todos os sábados para ensaiar novos passos de uma coreografia improvisada. A oportunidade de dançar com toda a família veio por meio da bailarina e pedagoga Keyla Ferrari Lopes, idealizadora e presidente da ONG Centro de Dança Integrado (CEDAI), em Campinas, que coleciona histórias comoventes de superação como as de Lívia e sua família.

Keyla Ferrari abandonou a carreira de bailarina profissional para ensinar crianças e adultos a dançar. Aos 17 anos de idade, começou a se apresentar em asilos, orfanatos e instituições de pessoas com deficiência, onde diz ter recebido os aplausos mais sinceros e verdadeiros de sua vida. Numa destas apresentações, crianças com deficiência mental não se contentaram em olhar e mostraram que queriam e podiam dançar também. “Foi neste momento que eu decidi me dedicar a ensinar coreografias às pessoas com deficiência, sejam elas físicas, motora, mentais ou sensoriais”, conta a bailarina.
O projeto de inclusão social, desenvolvido pela bailarina já existe há 14 anos, porém, como organização efetiva, há pouco mais de oito, e é visto como uma nova maneira de olhar e contemplar as linguagens corporais e estéticas da dança. Há quem diga que é um estado de libertação. Talvez o mais apropriado seja chamar de atividade inclusiva. Keyla explica que, ali, todos podem ter as mesmas possibilidades de participação. Os movimentos não são predeterminados para não correr o risco de excluir algum participante. “Não posso dar um comando que alguém do grupo não possa fazer.” Durante as aulas, segundo Keyla, todos entram em contato com seus limites e com os dos outros. Ninguém cuida de ninguém. Se precisarem de ajuda, vão pedir. E terão. “Isso muda o jeito de ver as coisas. E não é através do discurso, é da experiência.”
Atualmente o CEDAI atende cerca de 70 alunos de várias faixas etárias e de diferentes potencialidades artísticas e rítmicas. Segundo Keyla, há espaço, inclusive, para as pessoas que não mexem um músculo sequer do pescoço para baixo. “A condição aparente das pessoas com algum tipo de deficiência limita o nosso olhar. Estar numa cadeira de rodas, por exemplo, não significa que aquela pessoa está impedida de dançar”, diz bailarina, que nos ensaios dança com seus alunos.

É ignorando as impossibilidades e os nãos enfrentados pelos alunos no dia-a-dia que o CEDAI transforma a vida dessas pessoas. Prova disso, é a profissionalização de algumas alunas que já começam a ganhar cachê em apresentações de dança pelo país. “É incrível vê-las dançar e serem valorizadas por isso”, admite Keyla.
O CEDAI possui hoje dois espetáculos de dança prontos para serem apresentados, são eles: A Flor é Espelho, que conta a história de um amor universal entre uma mãe e sua filha com necessidades especiais; Alma Bailarina e Somos Um, que utiliza diversas manifestações artísticas (música, dança e teatro) para interagir com o público e explorar sua sensibilidade. Os espetáculos – concebidos em cima de poesias de Vicente Pironti e Iara Marta – criam um modelo de sociedade possível em que o potencial de cada um contribui para a riqueza de todos. Mas, para manter tudo isso, é preciso o mínimo de estrutura. Por isso, as portas do CEDAI estão abertas à espera de patrocinadores – que, em contrapartida, poderá usufruir da isenção de impostos.

O CEDAI fica na Rua Benedito Gomes Ferreira, nº 600, Parque Via Norte, Campinas. As aulas são gratuitas e os ensaios acontecem regularmente aos sábados.

Histórias que inspiram
Além do trabalho de inclusão através da dança, Keyla Ferrai possui diversos livros infanto-juvenis lançados, todos baseados em histórias reais vividas pelos seus alunos no CEDAI, como O Giro da Bailarina, A Casa Amarela, Um Menino Genial e João – O Palhaço Coração. Os livros estão à venda em todas as livrarias do país.

Para saber mais acesse CEDAI