Equoterapia, um ideal social

Formada desde 1998 em Fisioterapia, dedico meus dias à equoterapia. Unir a profissão à paixão de criança é privilégio de poucos. E para mim, isso aconteceu de maneira bastante natural, quando comecei a fazer um trabalho voluntário no Regimento de Cavalaria da PMESP, em 2000. Hoje, coordeno uma equipe multidisciplinar… [+]

Tamanho do texto
A- A+

Formada desde 1998 em Fisioterapia, dedico meus dias à equoterapia. Unir a profissão à paixão de criança é privilégio de poucos. E para mim, isso aconteceu de maneira bastante natural, quando comecei a fazer um trabalho voluntário no Regimento de Cavalaria da PMESP, em 2000. Hoje, coordeno uma equipe multidisciplinar que é treinada e capacitada a atender cada vez melhor às necessidades de cada paciente. Ao decorrer destes 11 anos, lido com condições diversas de impotência de crianças e adultos que conhecem a deficiência como realidade. A exclusão social e a carência de cuidados e atenção a essas situações são o que me move a continuar batalhando para proporcionar um bom atendimento, para permitir que essas pessoas sintam-se acolhidas pela família e, o mais desafiador, pela sociedade.

Para conseguir um atendimento gratuito no município de São Paulo, é preciso entrar na fila de espera de seis anos. A partir dessa realidade, criei o Instituto Anjo de Deus, OSCIP, com o propósito de promover atendimento de equoterapia gratuito, após triagem social, mediante parceiras com empresas, órgãos públicos e doações. Inicialmente atendíamos num espaço em comodato no bairro da Pompéia, onde alguns pacientes contribuíam com o quanto podiam mas, após um ano, este espaço foi vendido e por coincidência ou não, nos foi proposto patrocínio na cidade de Campo Limpo Paulista-SP, onde resido.Porém sem local apropriado, cedi a minha própria casa. Expulsei meu carro da garagem, instalei os cavalos, adaptei a casa de bonecas das minhas filhas num local para guardar material equestre e ração e dei início aos atendimentos na região.

Tal idealismo me custou caro, pois tive que me dedicar integralmente ao projeto tendo que abandonar meu consultório, pois apesar de estarmos limitados aos atendimentos apenas de sábado, para segurança clínica, os cavalos tem que ser treinados quase diariamente. Digo quase, pois como tudo é improvisado se melhoro as instalações, tenho receio de que digam que fiz isso com dinheiro do Instituto. Por isso, fico na dependência das intempéries do tempo. Desde então, recebo as crianças e seu familiares todos os sábados quando eu e minha equipe atendemos. E, a cada sábado ou nas tardes de segunda-feira, na Cavalaria, onde continuo como voluntária, me emociono com a evolução motora, cognitiva e/ou emocional, incontestável e particular de cada uma, sendo estas melhoras relatadas pelos familiares alegres e satisfeitos como, por exemplo, após cinco anos a criança balbuciar “pai” quando este chega do trabalho. Ou pelo emocionante ato de colocar a criança em pé e pedir que eu a chame e esta, ainda, com passos cambaleantes se dirigem em minha direção para que eu a leve ao encontro com o seu amigo – cavalo. A equoterapia promove a estimulação neurológica ascendente e descendente. Quando o paciente monta o cavalo, ao passo movendo seu dorso num movimento tridimensional, cadenciado e ritmado, o paciente sente uma estimulação sensorial própria e singular, o que promove melhora da auto-estima e auto-confiança. A capacidade de montar um animal de grande porte, mas extremamente dócil, a criança e/ ou adulto troca sentimentos de confiança e amizade com o cavalo. Essa sensação pode levar a melhora emocional para a rotina do paciente, promovendo o seu desenvolvimento biopsicossocial e a sua efetiva participação no contexto social.
Atualmente, com o reconhecimento da importância deste trabalho, foi cedido pela prefeitura de Campo Limpo Paulista um espaço com mais de 10 mil m² para ampliação e o Instituto possui ainda, um espaço cedido na capital de SP, no bairro de Santana, onde pode, a curto prazo, implantar atendimento para 50 pessoas por um período de 1 anos. Além de ampliar este atendimento a longo prazo mediante parcerias que assim poderão ser celebradas, uma vez que é incontestável a visibilidade que este projeto tem na capital de SP. No entanto, não temos verba para investir em infraestrutura. Foi quando li sobre o Projeto Generosidade, que doa incentivos nos valores de R$200 mil, R$80 mil e R$40 mil a projetos que se proponham a fazer o bem. Certamente, se o Instituto Anjo de Deus for o projeto contemplado, ficaremos felizes e, mais que isso, motivados ainda mais a investir em infraestrutura que permita atender com mais qualidade e profissionalismo um número maior de crianças e adultos.