Jovens da Maré na universidade

Fazer a diferença na vida de cada um dos moradores da Maré, maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, criando, na comunidade, as mesmas condições de vida do restante da cidade. É com este sonho em mente que os tecedores da ONG Redes da Maré se levantam todos os dias e trabalham para que dezenas de projetos beneficiem milhares de pessoas na comunidade, nas mais diversas frentes de atuação.
Os resultados deste amplo trabalho são medidos continuamente e orgulham não só as dezenas de profissionais envolvidos nos projetos, mas principalmente as pessoas diretamente beneficiadas por eles. Um exemplo de sucesso nesta busca por resultados que façam a diferença é o Curso Preparatório para o Pré-Vestibular (CPV).

A iniciativa nasceu a partir de uma triste constatação: em 1999, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), menos de 1% da população da Maré havia frequentado uma universidade. Hoje, 13 anos depois da fundação do CPV, o número dobrou: quase 2% da população da Maré (o que corresponde a cerca de 2.600 pessoas) fazem ou fizeram um curso superior.
Grande parte do mérito vai para esta iniciativa, que nasceu e se desenvolveu na própria comunidade, sob a liderança de Eliana Silva, uma paraibana que foi morar, aos sete anos de idade, na Nova Holanda – uma das favelas que fazem parte da Maré.
O envolvimento de Eliana (que hoje tem 49 anos e é doutora em Serviço Social pela PUC-Rio) em ações coletivas começou na adolescência, mas se aprofundou aos 22 anos, ao se tornar presidente da Associação de Moradores de Nova Holanda. De lá para cá, ela dirigiu toda sua energia criativa e mobilizadora para lutar pelo acesso da população da Maré tanto às demandas elementares no campo da dignidade humana (água, energia, asfalto, telefonia pública, habitação, saúde, educação etc) como também às mais sofisticadas (qualidade dos serviços, acesso à universidade, estudo de línguas estrangeiras e informática, cursos de artes, participação em atividades culturais e exercício pleno da cidadania, com igualdade de direitos etc).
Círculo virtuoso
Em treze anos de existência, o preparatório para o pré-vestibular (Preparando o Futuro – CPV) contribuiu para o acesso de mais de 900 estudantes da Maré ao ensino superior. Nascido da iniciativa de moradores e ex-moradores que chegaram à universidade e sob a responsabilidade da ONG Redes da Maré, o curso tem aprovado, em média, 80 alunos por ano nas diversas universidades públicas do Rio de Janeiro, além de particulares, como a PUC Rio.

Um dos diferenciais do projeto vem, inclusive, deste resultado: grande parte dos professores dos cursos preparatórios é da própria comunidade. Este protagonismo dos moradores, que retornam para a Maré um pouco da experiência adquirida na universidade, faz do projeto um poderoso aliado no processo de desenvolvimento local.
E como apenas um bom pré-vestibular não garante uma vaga nas concorridas universidades, o projeto estimula também a entrada dos jovens da Maré em boas escolas públicas de ensino médio – criando um círculo virtuoso de acesso à educação de qualidade.
Assim, desde 2003, o preparatório para o ensino médio da Redes acolhe em média 120 alunos por ano, sendo que cerca de 50 jovens são aprovados para escolas públicas como as técnicas federais e FioCruz – competindo de igual para igual com alunos oriundos de escolas particulares de ponta.
Com propostas e corpo docente e pedagógico semelhantes, os projetos Preparando o Futuro (Ensino Médio e Curso Pré-Vestibular) formam o Programa Rede de Saberes, cuja perspectiva estratégica é o fortalecimento da escola pública em todos os níveis.
Grande procura
Todos os anos 235 vagas são oferecidas para o pré-vestibular, número que não atende a demanda da comunidade pelo curso. Em 2011, cerca de 600 pessoas se inscreveram para uma vaga e se submeteram a uma prova classificatória com conteúdo curricular do ensino médio. Os interessados que obtiveram as melhores notas foram classificados.
Jovens moradores da Maré têm prioridade de acesso ao curso, cujo objetivo principal é – além da aprovação em exames vestibulares – favorecer a formação crítica e política de seus alunos. Não é à toa que uma das metas do projeto é levar os estudantes a participar de iniciativas sociais – especialmente na Maré, mas não só – como uma das maneiras de contribuir para sua formação cidadã e profissional.
Ampliar a oferta de vagas para atender a crescente demanda e melhorar as condições pedagógicas de formação dos estudantes (aquisição de equipamentos, materiais didáticos, biblioteca etc), assim como ampliar o acesso a novas perspectivas culturais e profissionais são desafios ainda presentes no programa.
O esforço em ampliar o leque de parceiros e fortalecer a presença de iniciativas como esta na cidade são também desafios centrais para a Redes da Maré – o que justifica a buscar permanente por novos recursos e novos companheiros de caminhada que tornem o futuro cada vez mais presente.

Para saber mais acesse Redes da Maré

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