Generosidade que transforma
Com paciência, Viviane cola sobre a madeira, rodelas de cipó. Como num quebra cabeças, as peças vão se encaixando e mais uma transformação acontece. Aos poucos, uma nova bandeja está pronta. Na outra mesa um grupo amarra fitas de retalhos coloridos na trama da tela. Devagar, um tapete toma forma. Trabalho de muitas mãos. Da sala ao lado ouve-se uma animada música. É a aula de dança que acontece simultaneamente. No alto, outra turma se exercita nas bicicletas ergométricas. Assim é o dia a dia nas oficinas da Adere – Associação para Desenvolvimento, Educação e Recuperação do Excepcional. Diferentes atividades acontecem ao mesmo tempo.
Produtos artesanais são criados a partir do reaproveitamento e/ou reciclagem de materiais doados. Nada se perde. Tudo se transforma. Garrafas pet viram vassouras. Embalagens de tetrapak de leite e suco servem de revestimento térmico para tetos. Tecidos os mais variados podem criar ecobags e bijuterias… Para a criatividade, não há limites. E com o apoio de monitores e voluntários, os aprendizes, como são chamados os atendidos da Adere, participam das várias etapas desses processos de transformação. Os trabalhos manuais são intercalados por atividades socioculturais e educativas.
Lá no começo da década de 70, ainda não se falava em reciclagem. Mas a coleta e revenda de embalagens de ovos ajudou a levantar recursos para a construção dos primeiros alicerces do que é hoje a Adere. Em 1972 um grupo de pais de jovens com deficiência intelectual se uniu para criar uma entidade que pudesse acolher seus filhos que entravam na idade adulta. Em comum, tinham a convicção de que era possível oferecer uma melhor qualidade de vida a seus filhos especiais. Acreditavam que, com o apoio adequado, eles poderiam desenvolver novas habilidades. Reuniram esforços e recursos para fundar a nova Associação. Junto com profissionais da área, cogitaram possíveis atividades terapêuticas. Várias técnicas foram pensadas, antes de chegarem à colagem. Adotaram o cipó como matéria prima para o delicado trabalho. A proposta deu certo. Mais do que terapia ocupacional, o trabalho nas oficinas provou que deficiência intelectual não precisava ser sinônimo de ineficiência. Os aprendizes puderam mostrar que eram capazes de produzir artesanato de qualidade. Hoje a marchetaria em cipó é a “marca registrada” dos produtos Adere. Ao longo dos anos, outras técnicas foram incorporadas ao dia a dia dos aprendizes – tecelagem, papelaria, reciclagem de papel… Na Adere as habilidades são valorizadas e as limitações respeitadas. Cada um no seu ritmo.
Ao longo de 39 anos, mais de 500 aprendizes passaram pela instituição. Atualmente 84 jovens maiores de 16 anos, adultos e idosos com deficiência intelectual freqüentam a entidade de segunda a sexta em período integral. Com o apoio de uma equipe técnica formada por psicólogos, assistentes sociais, arte-terapeutas, os aprendizes são capacitados para o trabalho. Alguns, com o tempo, conseguem uma oportunidade. A maioria, no entanto, passa a ter uma vida produtiva na própria entidade. Mas isso não significa isolamento. Ao contrário, promover a inclusão social das pessoas com deficiência intelectual faz parte da filosofia da Adere.
A entidade promove saídas e encontros para que haja uma interação entre os aprendizes e a comunidade. O grupo de teatro “Recicla Adere”, há mais de 6 anos visita empresas e escolas, com a peça “Coleta Seletiva”, que recentemente foi certificada como uma Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil. A grupo fala da importância da preservação do meio ambiente, da separação correta de resíduos e da destinação destes materiais para reciclagem, feita pela própria instituição.
Outros grupos de aprendizes oferecem também, fora da entidade, workshops de artesanato e Lian Gong – ocasiões em que passam de aprendizes a mestres.
Dificilmente quem conhece a Adere sai de lá, do mesmo jeito que entrou. Quem conhece a Adere se encanta e permite-se transformar. Por essa razão, aqui a generosidade tem várias faces: tem a curiosidade alegre dos alunos de 9º ano que vêm semanalmente conviver com os aprendizes, dentro de um projeto de cidadania de sua escola; tem a serenidade de quem já passou dos 90, e vem “religiosamente” às quartas-feiras se juntar ao grupo de voluntárias que colaboram na colagem de cipó; tem o espanto do empresário que pretendia fazer uma pequena doação, mas admirado ao ver do que os aprendizes são capazes, percebe que vale a pena investir mais.
A generosidade pode ter a face do que cada um tem de melhor. A generosidade pode transformar!
Para saber mais acesse Adere


