Colega legal
Em 2003, inicio do projeto, tínhamos três cegos matriculados, hoje são quatorze. Não tenho como precisar quantos cegos com ensino médio não cursam o ensino superior, mas a verdade é que o mercado não absorve o cego incapaz, não o treina. O universitário cego com domínio da informática garante logo um emprego e essa minha história conta um pouco sobre isso…
2003. Período de mudança de emprego veio à notícia que eu adquirira toxoplasmose ocular. Como procurei o oftalmologista logo que percebi algumas grandes manchas pretas na visão, comecei a tomar rapidamente os remédios e hoje vejo pequenas manchas, não me atrapalham muito. A falta do tratamento rápido é que causa a cegueira por toxoplasmose.
Ainda em 2003, prestes a concluir a graduação, recebi a visita de dois acadêmicos cegos vindos da reitoria. O magnífico reitor, pediu para que me procurassem pois precisavam “scanear” algumas folhas. Isto se deu porque na época apenas eu trabalhava com scanner na Instituição.
Explicaram-me que o uso do sistema de reconhecimento de caracteres do equipamento transformava o que precisavam estudar em arquivo digital e que sistemas leitores de telas liam para eles.
Comecei a trabalhar, nas horas vagas, como “scaneador” para eles. A demanda aumentou e já atendia a cega Margareth, que cursava Serviço Social. Ubirajara e Paulo Cezar começaram a demandar gravações por voz também.
Da minha sala passei para o laboratório de informática a pedido do chefe que já olhara torto. Logo, comecei a buscar novos voluntários no curso de TI, mas em vão. Até hoje 80% dos voluntários são dos cursos de licenciatura, principalmente Serviço Social – motivos óbvios. Começava minha carreira docente: Ensinar informática básica para as alunas – Basicamente Windows, Office, Internet e manuseio de scanner.
Em 2004 conclui o curso apresentando o Projeto Colega Legal – Nome oriundo das primeiras conversas em 2003, onde Ubirajara indagava que pessoas pensam que cego é amigo de cego, tipo: _Olá vi seu amigo lá na esquina!!!
Bom, pode não ser amigo, mas se o chamarmos para nossa reunião será um colega – Seu guia, amigo, parente também.
Em 2005, ganhamos uma sala na biblioteca com uma pequena mesa, um PC e um scanner antigo, lento, porém eficiente. E mais cegos e voluntários chegavam. O “boca boca” estava funcionando.
O dia D do projeto ficou por conta da visita do MEC. O dealbar do Colega Legal. Lembro dos embasbacados avaliadores observando os universitários cegos usando o Braille, ouvindo as gravações em fitas K7, a aluna scaneando, mostramos os leitores de telas…
Por fim, o saldo da visita foi uma nova sala, dois computadores rápidos, novo mobiliário, material de escritório, acessavam a internet… Vida nova para o Projeto.
Hoje, o nosso objetivo maior é expandir e abrir também para comunidade da Leopoldina esta porta para acessibilidade e inclusão do acadêmico cego. Isso mesmo. Não vamos reter a propriedade. O Magnífico reitor já autorizou. Podemos ter colega legal no concorrente, sem problemas, ou melhor, será colaborativo, vamos incluir juntos. Estamos com 13 universitários cegos matriculados e pagando a faculdade, mas não devemos nos tornar o Benjamin Constant do ensino superior. Vamos ajudar as agencias de emprego que buscam incluir, mas incluir de uma maneira diferente do subemprego para pessoas cegas.
Dar a oportunidade de parentes e amigos do cego aprenderem as tecnologias assistivas gratuitamente. Sabemos que quem ajuda mesmo na hora do aperto não é o voluntário, é pai, mãe, irmão…
Entretanto, esta possibilidade não é possível no momento, devido á estrutura atual do projeto, que, aos poucos, vai se desenvolvendo e orientando Instituições apenas através de palestras.
Com o investimento, podemos atuar em toda e qualquer escola da região que demande expertise em tecnologia assistiva e nossa metodologia aprovada pelo público alvo e corpo docente durante estes 08 anos na Unisuam.
Faz parte das atividades:
Apoio para datilografia computadorizada de material didático, conversão de texto original (livro / apostilas) para arquivos digitais, com a tecnologia OCR, apoio ao uso dos sistemas leitores de tela para deficientes visuais, apoio ao acesso do deficiente visual à rede Internet, principalmente sites em flash e com códigos inacessíveis, gravação de livros e apostilas em áudio. Como resultado: Aumentamos a produtividade e ampliamos o campo de atuação dos deficientes.
Como inovação: Sou pesquisador e estou trabalhando resultados com uma nova idéia de acessibilidade com quadros eletrônicos com apoio internacional.
Ou seja, em paralelo ao atendimento, temos alunos ajudando na pesquisa para transformar equipamentos e softwares em tecnologia assitiva.
Ministro as aulas de IHC – Interação Humano Computador. Prezo por um projeto cada vez mais colaborativo, sou um entusiasta de formas mais colaborativas de aprendizagens. Salve Augusto Franco, Luiz Algarra e outros grandes nomes. Salve o Colega Legal.



